MÉTODO

Custava a enxergar a placa do ônibus. Sempre que saía do trabalho era a mesma coisa: cefaléia, uma sensação de vou morrer daqui 3 minutos e vista embaçada. Ah, a vista embaçada. Perdera a conta de quantas vezes correu de encontro ao ônibus errado ou quantas correu mais rapidamente que o normal por perceber que não tinha avistado, de antemão, o ônibus correto.

Não se lembra ao certo quando começara a ser tão metódico. Também não se lembrava ao certo porque insistia em viver apenas o lado ruim dessa característica. À noite sempre tinha uma série de afazeres: comer assim que chegasse, esperar uma hora, ir à academia, voltar, preparar o jantar – tomates cortados em rodelas, cenoura ralada, peito de frango temperado com pouca gordura, pão integral – banho, conversar com o namorado, um game no pc, assistir ao último episódio daquele seriado, ler um conto daquele livro e lembrar-se dos outros 5 que o aguardavam. Acontece que em alguns dias declarava, em manifesto falado a si mesmo, não, hoje não vou fazer nada. E não fazia. E se sentia um inútil. Os livros ali, a olhá-lo arregalados, a cenoura esperando para ser ralada na geladeira, o tomate apodrecendo, os flancos a inchar com gordura sob a pele. Daí não dormia, traçando métodos para reverter o dia perdido. Sentia-se pressionado, mas por quem? Pelo mundo. Precisava de um psicólogo, mas como se não conseguia nem ralar uma cenoura por falta de tempo/motivação/desilusãoconsigomesmo?

Meses depois, conseguiu regular o sono e procurou o psicólogo. Tratou de avisá-lo que ele tinha apenas cinquenta minutos, cinquenta nada mais que isso, porque os dez restantes para uma hora era o tempo certo de descer, pegar o elevador e chegar a tempo no horário do ônibus. Passou a usar mais frequentemente os óculos, a não errar o ônibus e a não pensar mais em cefaléia. Chegava em casa, lembrava-se sempre de não se obrigar a fazer nada, por isso fazia tudo: comia, esperava uma hora, academia, jantar – tomates, cenoura, peito de frango, pão integral – banho, namorado, game ou seriado ou um conto do CFA – escondeu os outros livros. Às vezes via fotografias antes de dormir, às vezes queria abraçar o mundo, engoli-lo em um espasmo. No sono, não sonhava: era o único momento em que o vazio, com permissão escusa, operava.

 

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