Rubem Fonseca

Meu primeiro contato com a obra de Rubem Fonseca foi através do conto “A Santa de Schöneberg”, do livro Romance Negro e Outras Histórias. Corria o ano de 2005 e eu era um estudante do primeiro período de Comunicação Social, empolgado com as novas descobertas que a Universidade me proporcionava. A leitura desse conto foi uma delas, que aconteceu em função de um trabalho. Li e me apaixonei, com direito a todos sentimentos que da paixão derivam: pensei na história por semanas e não conseguia deixar de reler alguns trechos; buscava caminhos e criava em minha cabeça narrativas paralelas; pesquisava datas, locais descritos, personagens. Aquela atmosfera tomou conta de mim, do meu imaginário, do meu ócio criativo. Um tempo depois de todo o furor, senti que precisava de mais daquela linha narrativa, daqueles personagens tão admiráveis e reais. Eu precisava mais de Rubem Fonseca.

Daí para frente foram mais uns 30 contos lidos, 5 livros, algumas lágrimas, algumas risadas e um permanente espanto com a maestria desse escritor que me premiou com suas palavras. Me afundei na atmosfera essencialmente urbana e policial de suas histórias, contadas por personagens que tinha a impressão de ver, todos os dias, nas esquinas das ruas do centro da cidade. Não é uma literatura gostosa de ler, não é entretenimento, ler Rubem Fonseca exige envolvimento, exige mudança, dá gastura. Tudo isso porque é arte que precisa de diálogo. Afinal, quem lê “A arte de caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro” e não refaz, in loco, o mesmo caminho pelo centro do Rio, não vive toda a história. Da mesma forma que ler “A Santa de Schöneberg” sem conhecer – nem que seja um pouco – a obra de Egon Schiele, trará um entendimento incompleto e sem toda a grandeza necessária para se impressionar. É uma literatura que exige referências, que te dá a chance de se conectar, de fato, com sua atmosfera. É como eu disse, não é entretenimento. É arte.

Fica aqui um trecho de Lúcia McCartney, minha personagem favorita:
 
“Abro o olho: Isa, bandeja,torrada, banana, café, leite, manteiga. Fico espreguiçando. Isa quer que eu coma. Quer que eu deite cedo. Pensa que sou criança.
Depois que o marido da Isa foi embora ela ficou me marcando ainda mais. Isa diz que ele volta, mas eu duvido. Primeiro, ela não era casada com o marido dela. Segundo, acho que eles não se gostavam muito: Isa de vez em quando fazia programa, e ele sumia durante dias. Acho que agora sumiu de vez. Isa espera que o marido volte, a qualquer momento. As camisas dele estão todas passadinhas na cômoda e ela mandou consertar o binóculo, o cara era doido por jóquei. Ela não sai mais de casa, nem prum programa barra limpa, mas até agora, nada.”
 
 

Em referência a

A busca por referências é algo que determina (e muito) a maneira como conduzimos nossa vida em uma série de aspectos. Não seria diferente em relação a nossas concepções estéticas e artísticas. Costumo dizer que o que molda nosso gosto musical por esse ou aquele artista, por exemplo, perpassa necessariamente o nosso histórico de referências e tece uma teia extremamente complexa que traz de volta sentimentos presos a um passado de acontecimentos, cheiros, cores, sons, toques e presença. Não é à toa que algumas músicas passam a lembrar pessoas, fotografias antigas revivem cheiros e sabores de momentos que não voltam mais.

E nesse emaranhado de referências, vamos construindo nossa história de vida e dando nossa originalidade a tudo que nos referenciou – e, claro, nos tornando referência para outras pessoas em suas histórias de vida. Tudo no gerúndio mesmo, porque é um processo eternovitalício. Vejo a arte como uma materialização de tudo que nos traz boas ou más lembranças, porque, como a arte, essas lembranças são feitas de sentimento. E quando alguém se aventura a fazer arte, a materializar seus sentimentos, está também se aventurando a não só se tornar referência para os outros, mas a revisitar seus próprios sentimentos, suas referências pessoais, sua história.

O objetivo desse blog não é apenas expor minha humilde jornada de materializar minha vida, mas de mostrar o trabalho de outras pessoas que embarcaram em diferentes barcos, mas na mesma viagem. Mais do que seguir caminhos, meu intuito é encontrar as rotas que me levem a mim mesmo. Seja por palavras, imagens, sons, a exposição aqui é pautada por verdade e por (muito) sentimento.

Sejam bem-vindos.